Não se trata apenas de gestão.
Trata-se de projeto.
Ancorado no discurso da
eficiência fiscal e respaldado por setores poderosos do agronegócio, Mendes
consolidou uma base não sólida e ideologicamente alinhada. Em muitos momentos,
seu governo caminhou lado a lado com pautas da direita mais dura, contribuindo
para transformar Mato Grosso em um dos territórios mais fiéis ao bolsonarismo
no país.
O resultado é visível: o
debate público encolheu. Questões como educação, direitos sociais e inclusão
passaram a ser tratadas sob permanente tensão — o endividamento dos servidores
públicos através de consignados sob fortes suspeitas de ligação ao caso MASTER
ou quando não, simplesmente empurradas para segundo plano.
Há, claro, quem celebre os
números fiscais e a reorganização das contas. Mas há também um custo político e
social que não pode ser ignorado: servidores pressionados, políticas públicas
fragilizadas e um distanciamento cada vez maior entre governo e setores
organizados da sociedade.
Ainda assim, Mauro Mendes
chega ao fim de seu ciclo medindo força. E mais: como peça central na sucessão
estadual e potencial candidato ao Senado. O poder, neste momento, continua
orbitando ao seu redor.
Há um detalhe importante — e
revelador.
A principal disputa em Mato
Grosso hoje não é entre direita e esquerda. É dentro da própria direita.
A movimentação do senador
Jayme Campos escancara essa realidade. Ao se colocar como possível candidato ao
governo, enfrentando o grupo de Mendes no mesmo campo político, ele expõe
fissuras que estavam apenas disfarçadas. Não é ruptura ideológica. É disputa
por espaço, influência e comando.
E mesmo com esse racha, nada
indica mudança de hegemonia. Mesmo com as cotoveladas em palanque e a disputa
com o senador Wellington Fagundes pelas bençãos de Flávio Bolsonaro. A direita
continua sobrando no jogo.
Do outro lado, o silêncio
incomoda.
A centro-esquerda, que em
outros momentos teve protagonismo e capacidade de mobilização, hoje patina.
Falta nome, falta estratégia, falta, sobretudo, capacidade de se apresentar
como alternativa real de poder. O campo existe — mas não se materializa eleitoralmente.
E esse vazio cobra seu preço.
Sem um contraponto
competitivo, o debate se estreita. A eleição deixa de ser confronto de projetos
e passa a ser uma disputa interna entre grupos que pensam, em grande medida, o
estado sob a mesma lógica.
O eleitor, diante disso, não
escolhe entre caminhos distintos. Escolhe entre variações de um mesmo rumo.
As eleições deste ano,
portanto, dizem menos sobre mudança e mais sobre continuidade. A encruzilhada
existe — mas, até aqui, apenas um dos lados parece saber exatamente para onde
quer ir.
Se nada mudar, Mato Grosso não
terá uma disputa de projetos. Terá apenas uma troca de comando dentro do mesmo
campo político.
E isso, para a democracia, é
sempre um sinal de alerta.
Por: Luiz Carlos Benitt, jornalista
político.
