quarta-feira, 29 de abril de 2026

Mato Grosso em disputa: a direita briga entre si enquanto a centro-esquerda assiste.


Depois de quase sete anos de governo, Mauro Mendes não apenas administra Mato Grosso — ele ajudou a moldar o ambiente político que hoje domina o estado. Um ambiente em que a direita não só governa, como dita o tom, o ritmo e os limites do debate público.


Não se trata apenas de gestão. Trata-se de projeto.


Ancorado no discurso da eficiência fiscal e respaldado por setores poderosos do agronegócio, Mendes consolidou uma base não sólida e ideologicamente alinhada. Em muitos momentos, seu governo caminhou lado a lado com pautas da direita mais dura, contribuindo para transformar Mato Grosso em um dos territórios mais fiéis ao bolsonarismo no país.


O resultado é visível: o debate público encolheu. Questões como educação, direitos sociais e inclusão passaram a ser tratadas sob permanente tensão — o endividamento dos servidores públicos através de consignados sob fortes suspeitas de ligação ao caso MASTER ou quando não, simplesmente empurradas para segundo plano.


Há, claro, quem celebre os números fiscais e a reorganização das contas. Mas há também um custo político e social que não pode ser ignorado: servidores pressionados, políticas públicas fragilizadas e um distanciamento cada vez maior entre governo e setores organizados da sociedade.


Ainda assim, Mauro Mendes chega ao fim de seu ciclo medindo força. E mais: como peça central na sucessão estadual e potencial candidato ao Senado. O poder, neste momento, continua orbitando ao seu redor.


Há um detalhe importante — e revelador.


A principal disputa em Mato Grosso hoje não é entre direita e esquerda. É dentro da própria direita.


A movimentação do senador Jayme Campos escancara essa realidade. Ao se colocar como possível candidato ao governo, enfrentando o grupo de Mendes no mesmo campo político, ele expõe fissuras que estavam apenas disfarçadas. Não é ruptura ideológica. É disputa por espaço, influência e comando.


E mesmo com esse racha, nada indica mudança de hegemonia. Mesmo com as cotoveladas em palanque e a disputa com o senador Wellington Fagundes pelas bençãos de Flávio Bolsonaro. A direita continua sobrando no jogo.


Do outro lado, o silêncio incomoda.


A centro-esquerda, que em outros momentos teve protagonismo e capacidade de mobilização, hoje patina. Falta nome, falta estratégia, falta, sobretudo, capacidade de se apresentar como alternativa real de poder. O campo existe — mas não se materializa eleitoralmente.


E esse vazio cobra seu preço.


Sem um contraponto competitivo, o debate se estreita. A eleição deixa de ser confronto de projetos e passa a ser uma disputa interna entre grupos que pensam, em grande medida, o estado sob a mesma lógica.


O eleitor, diante disso, não escolhe entre caminhos distintos. Escolhe entre variações de um mesmo rumo.


As eleições deste ano, portanto, dizem menos sobre mudança e mais sobre continuidade. A encruzilhada existe — mas, até aqui, apenas um dos lados parece saber exatamente para onde quer ir.


Se nada mudar, Mato Grosso não terá uma disputa de projetos. Terá apenas uma troca de comando dentro do mesmo campo político.


E isso, para a democracia, é sempre um sinal de alerta.

 

Por: Luiz Carlos Benitt, jornalista político.

Nenhum comentário:

Postar um comentário